A Pandemia no Espelho
Onda secundária à pandemia que se alastra como incêndio pelo mundo, temos agora o vazio que fica. Tensão aumenta. Dúvidas continuam.
Por que não ir à praia no meu tempo livre? O que farei eu em casa? Como criar rotinas?
Todas perguntas pertinentes, e dentre elas, uma é raramente feita: como posso contribuir?
A dificuldade e resistência oferecida por alguns indivíduos aos protocolos de isolamento social mostra uma faceta pouco evidente de nossa sociedade: aquela pouco solidária e individualista. Mas logo aquele brasileiro tão camarada, tão festivo …
Nosso desenvolvimento social precário nos coloca em posição de, num momento de crise e comoção social como o que vivemos, mostrar ao mundo o quanto somos pequenos e o quanto ainda temos que aprender.
Um passo grande e importante para sairmos da posição de subdesenvolvimento é abandonar a posição de “o que recebo fazendo isso?”para a de “que contribuição para a sociedade a minha attitude pode ter?”.
Precisamos ter a consciência de nosso papel social. De que nosso dever de cidadão vai além dos nossos direitos. Ser cidadão é também ser responsável para não ser um vetor, um transmissor de uma doença que pode ser grave e causar a morte de alguém que não conheço, de um parente distante, ou até da minha própria mãe. Hoje Podemos não ter sintomas. Não há como saber como estaremos em uma semana.

0s 300 contra o vírus
Paralelo a isso, temos uma Sistema de Saúde precário, que já sangrava previamente. Dificuldades com leitos, procedimentos, materiais, instalações, sistema de notificação e reação extremamente precários.
Não me aterei à prevenção porque aí passamos a um outro patamar, que exige uma participação e aderência muito maiores do que aqueles que temos hoje, por parte da população e dos órgãos competentes. Ainda não temos cultura preventiva. Esse foi meu principal impulsionador na mudança de linha de atuação médica.
Como combater os inimigos invisíveis? Parece que estamos sempre correndo atrás do bandido. E é verdade! É para isso que existem as pesquisas, os centros de controles de doenças, e outras instituições competentes.
É importante enfatizar que não escrevo isso como anúncio de desistência, mas sim de incentivo! Nossa população precisa acordar! Precisamos entender como funciona um Sistema de Saúde e participar dele.
É difícil combater epidemias. Pandemias são ainda mais difíceis, e nos mostram a todo momento como a vida é frágil e o quanto somos pequenos. Mas fazendo as coisas certas Podemos mudar o final dessa história.
Me causa espanto ver a resistência de algumas pessoas em cumprir as medidas simples de restrição de contato, de distanciamento, e de higiene pessoal. Por que falar de perto? Por que não manter distância de segurança se for inevitável ir ao supermercado ou à padaria? Por que sair com bebês?
Não desistam! Restrinjam o contato social ao estritamente necessário. Lavem as mãos! Por favor, lavem as mãos! Tenham um cuidado a mais com os vulneráveis (gestantes, idosos, crianças de colo e imunossuprimidos).
Tente ver pelos olhos do outro. Tenhamos empatia!
Temos diante de nossos olhos uma oportunidade gigante de nos tornarmos uma sociedade melhor.

Coragem
O inimigo invisível anda lá fora. Ouço sirenes, ouço pássaros passando durante todo o tempo em que estou em casa. São sons que não fazem parte do meu cotidiano, porque não faz parte dele ficar restrito em de casa. Não tenho assim, tempo para apreciar muita coisa que acontece por aqui quando não estou por perto.
Tento regrar horários e incentivar meu filho de 12 anos que está comigo e, como qualquer criança, tem dificuldade de compreender exatamente o que acontece. Seria mais fácil poder estar lá fora, indo à escola, vendo os amigos e tudo o mais.
Manter a rotina sã é nosso maior desafio nesse momento.
É muito fácil relaxar e sair da linha. Estamos regrando horários, mantendo horários de refeições, estudo e deveres, atividade física, jogos e filmes.
Ontem ele chorou num momento de melancolia, por sentir falta da rotina e de pessoas amadas. Conversamos muito e expliquei a ele que ser forte não é não sentir tristeza, mas conseguir reagir e criar soluções em meio ao caos. Mantenho incentivando-o a reservar uma hora de seu dia e telefonar ou fazer video-conferência com alguma pessoa querida.
Vejo que é mesmo um desafio manter a sanidade num momento como o atual. Controlar nossa ansiedade e manter a rotina em ordem é um desafio em nossa vida.
Não deixar que nossas frustrações e tristezas afetem nossa comunicação com as outras pessoas seria impossível para nós, humanos. Mas cabe a nós tentarmos não desforrar no outro nossas frustrações ou mágoas, pois isso cria um efeito-cascata.
Em situações de stress e confinamento o desafio é maior. O tempo de contato é grande, e não há o conforto do espaço (quando imaginamos que poder nos afastar dos que amamos seria um conforto?).
Todos estão sob pressão, seja eplo confinamento em si, seja pela onda que o sucederá. Dificuldades econômicas e financeiras virão. No mundo inteiro.
Não podemos abrir mão de uma rotina mentalmente sã, nem de hábitos saudáveis. Precisamos cultivar nossas relações, mesmo que à distância.
Parabéns pela reflexão Dr José Augusto, sábias palavras